domingo, 26 de outubro de 2008

Barbatanas e cloro

E pois que voltei a nadar. E pela manhã bem cedo.
Mesmo agora, que já está frio e que custa um bocadinho saltar da cama, o facto de ter voltado sabe-me a algodão doce. Já tinha aqui mencionado as saudades que sentia do nirvana-de-cloro. Pois bem: voltou em força. Aquela meia horinha sabe-me a algodão doce. Nadar continua a ter o mesmo impacte em mim... é um exorcismo. É um SPA intelectual fortíssimo, como se pusessem pedras quentes no espírito ou me fizessem uma massagem na alma. E depois, há aquela sensação de dever cumprido quando se sai da piscina. Mesmo sabendo que a forma de antigamente já lá vai, claro.
Há agora por aí uns gadgets engraçados: MP3 waterproof, próprios para usar na piscina. As voltas que o mundo deu, hein? Ainda há pouco tempo andava feliz da vida com um walkman de K7... agora podemos ouvir gigabytes transformados na Alicia Keys ou no Jamiroquai debaixo de água, enquanto nadamos... :)
Não vou resistir e vou comprar um.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A saudade

O que me traz cá hoje aperta-me muito o peito.
É a palavra - só existente com significado próprio na língua portuguesa - saudade.
Tenho ideia, do que pouco que julgo conhecer da vida, que o sentimento de saudade assume, nas nossas vidas, metamorfoses várias. Pode ser uma saudade gostosa, numa mescla de nostalgia e de recordações quentinhas... e pode ser uma saudade má, porque misturada com um sentimento, amargo e insuperável, de perda.
É precisamente uma mistura destes dois tipos de saudade que sinto pela minha , pela minha Abuelita, pela minha Avó querida.
A verdade é que a sensação que tenho é a de que só começamos a ter noção efectiva da verdadeira dimensão da vida, do que ela representa, quando perdemos alguém de quem gostamos muito, desmesuradamente... tão desmesuradamente que nos damos ao luxo de nem pensar nisso, de não dizer todos os dias "gosto de ti", de não aproveitar cada segundo. Esquecemo-nos que gostar também se alimenta, não basta saber só que se gosta, porque a finitude da vida não se coaduna com essas assumpções arrogantes... nós sabemos que gostamos, o destinatário do sentimento até pode saber também, mas não chega... há que dizê-lo, há que celebrar, há que festejar, há que exprimir, há que usar a voz, o toque e o olhar. Há que dizer "gosto de ti".
Dava tanto para voltar a ouvir a Bó rir-se, a Bó a ralhar comigo, a Bó numa eterna preocupação de minúcia comigo, a Bó aflita porque não como, a Bó em desespero porque está a chover e está trovoada e a minha Mãe ainda não chegou a casa, a Bó a fazer-me festinhas no braço, horas a fio, para que eu adormecesse, a Bó à minha espera, na esquina da escola, de lenço na cabeça, à minha espera, a Bó a vigiar-me as brincadeiras na rua, a Bó zangadíssima porque eu respondia torto, a Bó num reiterado "Se não comes, vais parar ao Hospital, vais, vais", a Bó a trazer-me codornizes da praça para me fazer ao almço ("Bó, fazes-me passarinhos pequeninos para o almoço?"), a Bó num desassossego porque eu tossia à noite.
Dava tanto para poder dizer-lhe tudo o que não disse, abraçá-la tudo o que não abracei. E digo isto na certeza de que o ser humano é terrível, porque sabemos que é preciso fazê-lo e depois continuamos as nossas vidas sem dizer aos outros que os queremos bem e que a nossa vida sem eles seria menos vida do que é.
Este sufoco na garganta que sinto sempre que as saudades que te tenho embaraçam a minha alma desta maneira... dói tanto.
Eu sei que estás aí, Bó. Eu sei que sim. E gosto tanto de ti, tanto!