domingo, 19 de abril de 2009

Professora Pipa


Esta coisa de ter um cão tem-se revelado surpreendentemente fantástica.
Sempre gostei de cães. Claro, porque hoje sei que é impossível ter um cão sem se gostar desmesuradamente deles. O empenhamento operacional que é exigido a um dono medianamente cuidadoso e responsável é épico: apanham-se cócós (alguns deles absolutamente diarreicos, note-se), limpam-se xixis, assistimos passivamente ao declínio estético das nossas casas (paredes roídas, rodapés misteriosamente desaparecidos, chinelos e sapatos moribundos, meias e cuecas impiedosamente assassinadas a sangue frio). 
O trabalho que cuidar de uma casa com um cão dá só é comparável ao trabalho na estiva, só que, claro está, não remunerado. Perdão, bem pelo contrário: nós pagamos para ter o cão: despesas de veterinário, rações, acessórios... mil e doze acessórios que ninguém nos avisou que era preciso comprar:
- o saquinho para as guloseimas, para evitar que ele esgrovie no meio da rua e desate a correr como se não houvesse amanhã... sendo certo que, mesmo com as guloseimas, eles piram-se na mesma;
- o recipiente para beberem água nos passeios de carro... claro que um tupperware não dá!!! Tem de ser um recipiente próprio, como se o cão se importasse de beber água de um sítio qualquer que tivesse custado abaixo dos 2 euros;
- o bebedouro e o comedouro próprios, de preferência elevados (!?) por causa dos eventuais hipotéticos problemas de coluna que o animal pode vir a desenvolver e claro está que a gente-não-ia-querer-isso;
- as escovas, pentes e coisinhas que tais, para fazermos uma coisa que os hodiernos chamam de grooming e a que as pindéricas como eu chamavam dar uma escovadela;
- a toalha ultra-hiper-abosrvente-e-feita-de-microfibra-especial para enxugar o trambolho quando lhe damos banho (e nem queiram saber o que um momento de distracção pode fazer quando o dito desata a sacudir-se mmmmmesmo no meio do hall)...
Eu podia continuar. Post abaixo, páginas e páginas. Mas não vim cá hoje quebrar este silêncio que decerto vos custou tanto (aahahah) para me queixar.
Vim cá para dizer que tenho aprendido com a Pipa mais do que tenho aprendido com 75%, vá, 70% dos humanos com que me cruzei a minha vida toda. 
Não sei se estão a perceber... a lição de vida que um cão dá deixa de rastos qualquer credo religioso. Aquele factor do animal irracional é treta. Ou melhor, até pode ser cientificamente verdade... tanto quanto é emcionalmente verdadeiro que estes bichos sabem amar, todos os dias, como se a todos os minutos sobreviesse o apocalipse e esles soubesse disso.
Dou por mim, às vezes, a falar dela como se de um amigo ou se da família se tratasse (o que não deixa de ser a mais redonda verdade). Lembro-me de achar irritante ouvir x ou y falar do respectivo cãozinho como se os animais tivessem querer ou sentir... relatando até à minúcia as proezas dos canídeos e debitando sem parar "ele sabe quando estou zangada com ele, ele sabe"... ou " e depois ele foi ter comigo a olhar para mim porque sabia que eu tinha chumbado no exame, o malandro, e ficou ali a dar-me beijinhos para me sentir melhor e depois até me ladrou para eu sair da cama e ir arejar, foi, foi...!". Eu sei, eu achava isto tudo compreensível, mas hiperbólico. Tão hiperbólico que às vezes até se me atacava uma certa urticária.
Hoje, porque a vida dá mais chapadas de luva branca do que esperamos, dou por mim a exercer o mesmo timbre de irritação nos que me rodeiam. 
Mas a verdade é que eles sabem, os malandros. Não será inteligência abstracta nem nada que se assemelhe a raciocínio dedutivo, certamente. Eu nem quero saber o que é, não quero. 
Só sei que lhe chamo amor. Até pode ser um amor interesseiro, com cheiro a carninha de vaca ou a ração de frango... mas é um sentir. 
Às vezes, do alto dos nossos dias de atropelo, com 23242526 coisas para fazer e outras tantas para não esquecermos, no meio dos subsequentes (e inconsequentes) afazeres do dia a dia sôfrego e sem-tempo, olho para ela e vejo que somos tão exigentes. Tão intolerantes. Tão materialistas. 
Vejo-a a abanar o rabo até coonseguir acertar numa coisa qualquer e parti-la :) e vejo que a felicidade fotografa-se assim, naquele momento. E, para ela, a vida é cada um desses momentos de felicidade, a sobreporem-se, impiedosos, a todos os outros menos bons, que rapidamente esquece ou a que rapidamente se habitua (a trela, por exemplo). Não exige mais nada do daqui-a-nada ou do amanhã. Cada vez que abana o rabo de felicidade, sendo que a felicidade pode ser uma meia ou um gancho perdido e apanhado do chão, fotografa a própria vida, capta-lhe a essência. Não quer grandes globalismos, nem grandes objectivos, certamente não precisa de grandes concretizações. E nem há tempo para acordar mal disposta ou de mau humor, não há tempo para essas tretas quando pode vir uma festa na cabeça a caminho... tem de se aproveitar.
Esta capacidade de nos arrancar o sorriso e de nos aquecer a alma é brilhante.
Raisparta a consciência humana e mais o nosso ser. Pensamos demais!